Brasileiro gosta de reclamar. Quer dizer, a raça humana, em geral, gosta de reclamar, mas o foco hoje são os meus compatriotas. E o que antigamente ficava restrito a conversa de bar, reunião de família e coffee break no escritório, hoje, com blogs, twitters e facebooks da vida, toma conta da população inteira. Seu vizinho toca música alta toda noite de baixo da sua janela? Todo mundo sabe, por que você postou no twitter o nome do filho da puta de mau gosto e o endereço dele, pra quem quiser descontar. Um timeco medíocre da terceira divisão ganhou uma partida contra o Piroquinha do Norte F.C. ontem? Não me interessa, mas tá lá no Facebuqui pra todo mundo ver as fotos de você no estádio com a cara ridículamente pintada, sem camisa, todo suado, abraçando outros 3 medíocres desconhecidos igualmente lambuzados de suor, ridículamente felizes da vida, comemorando o fato de 11 pernas de pau que mal conseguem controlar uma bola conseguiram ganhar de um a zero contra uma equipe de vagabundos que fingem que jogam futebol porque não tem a capacidade de calcular a soma de três números de uma vez só. Então, já que todo mundo pode reclamar, eu vou entrar na dança.
Não bastava eu saber que 28 bilhões de reais que poderiam construir mais de 570 hospitais (acha que eu estou brincando? vá se informar ) ou escolas que possam dar uma qualidade de vida quase que decente para um bando de gente serão, supostamente, melhor investidos para tornar o Rio de Janeiro um lugar bonito para receber os jogos olímpicos de 2016. Não, além disso, eu preciso receber uma enxurrada de twits de gente que come mal na hora do almoço por que não tem dinheiro pra comprar carne de segunda comemorando o fato. Vai melhorar o turismo? Vai. Por três meses. Ou você já se esqueceu da ECO-92, quando todos os mendigos da cidade maravilhosa foram escondidos as pressas para receber governantes de todo o globo, mas que misteriosamente voltaram a circular logo após o fim do encontro? Aliás, aproveite as olimpíadas para visitar o Rio em 2016, por que vai ser a última vez em muito tempo que a cidade fará juz ao título de maravilhosa. Tenho certeza que você não vai ver ninguém mijando na rua durante esse período (e eu não estou falando de mendigos). Aposto que até os motoristas vão estar um pouquinho educados. Vai sair caro, mas vale a pena. Vai ter até gringo passeando pela linha vermelha com câmera pendurada no pesoço.
Curioso é que todo mundo reclama do governo, do trabalho, da TV, do pãozinho queimado da padaria, dos operadores de telemarketing (e aproveito para dizer que um dos momentos mais felizes da minha vida foi quando mandei uma delas tomar no cu antes de rachar o meu telefone porrando ele no gancho, então não se sinta ofendido), da saúde, mas ninguém reclama dessa caralhada de grana que será jogada fora construindo hospedagens momentâneas para alguns 2.000 atletas que recebem mais de patrocínio da Nike por mês do que você ganha trabalhando que nem cachorro o ano inteiro. Quero dizer, você acha mesmo que o Brasil não tem nenhuma utilidade melhor para 28 FUCKING BILHÕES DE REAIS? Nem a pau, Juvenal!
E só pra aumentar o gostinho de merda que vai ficar no fundo da boca, ainda seremos coroados com uma festa de abertura com performance de:
a) Carlinhos Brown - pra passar uma idéia de pseudo-culturalidade modernosa;
b) Pitty - pra mostrar que brasileiro não fica preso a axézinho medíocre, também sabe fazer rockzinho importado disfarçado de brasileiro medíocre;
ou
c) Daniela Mercury ou Daniel - a idéia aquí seria uma pseudo-culturalidade sem criatividade nenhuma, pra ficar na mesmice mesmo, independente do estilo musical.
( Eu gostaria de poder acrescentar a opção d) Vanusa cantando o hino nacional - pra mostrar que brasileiro também saber rir da própria burrice - mas aparentemente o ponto máximo da auto-crítica em massa no Brasil são as piadas do Casseta & Planeta. E como esses caras não me fariam rir nem se assoviassem o hino nacional pelo cu, vamos acabar a conversa por aquí )
Não me leve a mal. Eu gosto de esportes, acho bacana chamar atenção pro Brasil, toda vez que aparece um novo Guga um monte de moleque larga do video game pra praticar esporte, coisa e tal. Mas será que agora é o melhor momento pra pegar toda essa grana e criar um espetáculo? Não tem mesmo ninguém morrendo de fome, dependendo de hospital vagabundo e aprendendo a ler com placas de trânsito no momento?
Acho quer não preciso dizer muito mais para explicar o meu ponto de vista. Se você acha que R$ 28.000.000,00 é uma boa quantidade de dinheiro para finalmente ensinar ao mundo que Buenos Aires não é a capital do Brasil, problema seu, eu não vou mais insistir nisso. Até porque não vai adiantar nada. Abração.
PS. Ah, se alguém aí quiser me mostrar como todo esse gasto trará mais benefícios do que investindo com educação, saúde e alimentação (sabe aquela coisinha básica?), me avise. Eu prometo que boto a minha cara a tapa.
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